Todos prontos a mesa e Julião, sem rodeios, levanta de sua cadeira e anuncia:
- Inventaram que estou perdendo a memória e após refletir, penso que podem ter razão... o médico investiga um possível declínio cognitivo que pode ser o início de demência. Sabem o que isso significa? Ficarei gagá, caduco, inútil!
- Não fale isso pai, rompeu Ane, ainda é uma investigação, devem haver outras possibilidades.
- Anelisa minha filha, eu ainda estou longe de terminar. Respirou fundo para organizar seus pensamentos e continuou.
- A consulta foi há três semanas e hoje é o quinto dia da medicação orientada pelo dr Estevão. Não sinto qualquer diferença, a não ser leve torpor ao acordar, mas isso pode ser coisa da minha cabeça. O único pedido que tenho a fazer é: NÃO me atropelem e por favor, não me tratem como se eu tivesse a idade da Lis (neta de 4 anos) mesmo quando eu não lembrar se quer como pegar um lápis.
Humberto não conseguia falar, se perdeu comparando a filha com seu pai em pensamento - Isso não fazia sentido.
Ane tentava encontrar diferentes diagnósticos no "dr Google"... e se irritou com a mãe ao sentir que Margarida tirava o celular de suas mãos. - Mas mããe...
Paulo, o mais velho, já esperava uma notícia difícil, mas assistir o esforço do pai em manter o controle o deixou sem fôlego e largou:
- Como se envelhecer não fosse o suficiente pai! Desabando os braços sobre a mesa e fixando o olhar nos dedos entrelaçados.
Após alguns minutos de silêncio, Julião levantou e foi para sua poltrona, como sempre fazia ao término das conversas a mesa. Os filhos acompanharam o pai, enquanto Ane ajudou sua mãe com a mesa, louça, essas coisas.
Margarida já se preparava para a tempestade de perguntas vindas da filha, mas para sua surpresa o que veio foi um desabafo... - Nós já imaginávamos isso não é Da. Ida? E abraçando a mãe chorou.
Chorou pelo que estava por vir, chorou pelo que ela desconhecia e chorou porque ela simplesmente precisava chorar.
Margarida afagou seu cabelo e disse que juntas seriam mais fortes porque seus irmãos ainda levariam um tempo para compreender o que esta por vir - e eles estavam estranhamente tranquilos.
CONTINUA...
Quando a pessoa tem a oportunidade de dar esse tipo de notícia e é recebida com apoio e respeito, seus laços de confiança e afeto são reforçados.
Compartilhar a notícia com os filhos desde o início alivia o fardo e cria a primeira, e mais importante, rede de apoio. Escutar o pedido de um pai (ou da mãe) para ser respeitado, fortalece o vínculo e estabelece um acordo mútuo.
Busque apoio nessa jornada. Precisa de ajuda? Deixe-me saber.
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Abraço,
Letícia B. Fagundes
CREFITO -95.953-F

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