- E quando eu esquecer?
- E quando eu não puder mexer?
São tantos os "e quandos"...
Eles acompanham todas as pessoas que recebem o diagnóstico de Declínio Cognitivo ou alguma doença neurodegenerativa.
Não foi diferente com Julião, que ao recebê-la, pôs-se a organizar suas coisas pessoais.
Etiquetou todas as portas e gavetas do escritório, pastas com documentos importantes, inclusive as caixas do relógio e óculos de sol preferidos (e únicos).
Margarida o observou, sem se intrometer, e até ajudou o marido - no pouco que lhe foi permitido.
Semanas se passaram e a data da nova consulta chegou. Julião quis ir sozinho ao médico e Margarida, apesar da pressão feita pelos filhos, concordou com o marido.
O taxista chegou no horário marcado e, como de costume, apressou-se para abrir a porta do carona - ao seu lado, na frente. Era onde Julião gostava de sentar quando não estava com a esposa (neste caso a acompanharia no banco de trás).
- Bom dia S'Julião! Qual será o problema de hoje? (referindo-se aos assuntos discutidos a cada corrida - política, futebol, preço da gasolina...)
- De hoje em diante o nosso problema será: "E quando", meu rapaz!
- O taxista olhou para o freguês sem entender e ao olhar para Margarida parada no portão, não obteve a ajuda que buscava.
Assim que o motorista arrancou com o carro, Julião soltou:
- Ivo, quando eu não mais lembrar de você, por favor, me desculpe.
- S'Julião, não pense nisso. Claro que o senhor lembrará de mim, o senhor lembra de tudo.
- Escute Ivo, pare o carro, falou Julião de maneira firme.
- Mas S'Julião, o senhor tem hora no doutor, precisamos chegar um pouco antes.
- Eu disse pare o carro.
- Em seguida o taxista estacionou e desligou o carro para dar a atenção solicitada.
- Quero fazer um trato com você, meu rapaz. - disse-lhe Julião continuando... - e, por enquanto, deverá ficar somente entre nós dois.
- O jovem motorista franziu a testa, mas não se manifestou.
- A partir do mês que vem, quando eu sair para as minhas caminhadas odiosas, quero que você me siga. Não precisa ser por todo o tempo, mas vou lhe informar o horário, os dias da semana e o trajeto, assim você poderá dar uma olhada para eu não me perder. Combinado?
O rapaz escutava atento.
- Acertarei com você, como sempre faço, nos dias do Clube do Bolinha - como você gosta de chamar e, por favor, não comente com meus filhos; para Da. Ida falarei no meu retorno, agora vamos!
Ivo ligou o carro e levou Julião até o consultório do neurologista. Desta vez, aguardou no carro sem encaixar outra corrida.
CONTINUA...
***
Pareceu estranha essa conversa?
Não se espante, ela é mais frequente do que as pessoas imaginam.
Diariamente o medo do esquecer divide a atenção com o medo de não movimentar, nos pensamentos de quem vive essa jornada.
Então, considere esses acordos, eles frequentemente são de grande ajuda para as famílias. Pessoas de confiança são sempre bem-vindas, mas precisamos lembrar que, muitas vezes, também nos decepcionamos.
A rede de apoio mantém a independência das pessoas e alivia o peso da jornada. Inúmeros taxistas, motoristas, porteiros, funcionários antigos das famílias são meus melhores "ajudantes", pois conhecem tanto, ou mais, da rotina do paciente que os próprios filhos.
Reflita sobre isso e que tal substituiur o "e quando?" pelo "e agora?
Eu envio as próximas matérias pra você, basta cadastrar seu e-mail, você as receberá assim que forem publicadas.
Abraço,

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